quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Sobre os homens das cavernas contemporâneo!
Paulo Cesar dos Santos Braga! 

Diariamente somos bombardeados com notícias de horror de nível mundial, e essas nos passam muitas vezes despercebidas pelos olhos (e mentes) voltados a beleza da vida, a falsa sensação de imortalidade e eterna juventude. 

É muito fácil ficarmos de fora quando já estamos de fora, ou seja, quando acontece em lugares distantes, mesmo que essa distância seja a a 20 metros de ti, ou a 2 mil km. 

Domingo fiquei sabendo da tragédia de SM pelo meu irmão, na hora em que estava me dirigindo pra almoçar em sua residência. Um acontecimento assim, que ocorreu a mais de 300 km daqui, que não acometeu nenhuma pessoa conhecida (ao menos que eu saiba), o que diz respeito ao nosso (meu) cotidiano? Confesso que fiquei sim, atormentado (mais indignado mesmo) com todo o tsunami de informações que recebi nesses 2 dias. Mas não pelas informações em si, pois estas precisam aparecer. Mais pela maneira como se coloca, pois parecia uma competição de 1000 metros com obstáculos de olimpíadas, onde os repórteres eram os atletas, as empresas de tv as equipes, e pasmem, as vítimas (sejam famílias, sobreviventes, ou os próprios acometidos pelo fato) representavam os obstáculos. Os que conseguiam capturar as "melhores" imagens e tomadas ao vivo, sugando toda a dor que já não tinha mais força a sair dos entrevistados eram além de os próprios obstáculos, os troféus exibidos, e isso realmente me indignou.

Mas claro, estou triste. Muito triste. Fiquei meio que em choque. Meio não, muito. Quando fiquei sabendo, precisei de um tempo de assimilar. Me disseram, hoje não vai ter rodada do gauchão... Fiquei puto na hora, mas não sabia o porque... Tava pronto pra ir ao Vermelhão da Serra torcer para o Passo Fundo, mas como? Mesmo que tivesse jogo, quantos amigos, familiares e torcedores dos clubes gaúchos estavam lá, apenas se divertindo?

Enfim, após ter uma compreensão um pouco mais real do ocorrido, passei a refletir. Quantas vezes passamos por riscos semelhantes e que não ocorreram por sorte? Casas noturnas lotadas, shoppings e cinemas, estádios de futebol? Ah, mas é diferente! Claro! Mas a vida não! Qualquer lugar é lugar para que a vida se despeça. Como diz Raul Seixas, "um escorregão idiota com a cabeça no meio fio". Qualquer lugar é lugar!

E a morte nos faz lembrar da vida, e nos faz lembrar da morte, e nos faz lembrar dessa relação simbiótica presente nisso que dizemos ser tão diferente. Morte/vida. Morte/vida, diferentes? Iguais? Se completam? Não sei!

O fato de vermos uma imensidão de pessoas morrerem dessa forma nos remete a realidade, nos puxa a orelha e nos faz pensar no que não estamos acostumados! No que não estamos olhando (mesmo que ao meu lado alguém esteja morrendo por qualquer coisa). Afinal, queremos e acreditamos e sujeitamos e sugerimos que somos jovens, sadios e que a morte vai demorar... E ficamos na fantasia de que o lugar que estamos é de "grife", portanto deve estar amparado a não ocorre tragédias. E ficamos fantasiosos de que os outros são responsáveis por nós mesmos. E na fantasia que o mundo nos passa e também nos ajuda a acreditar ficamos, e dela não nos damos conta de são apenas aparências, que na verdade, por trás de tudo isso existe sim, um fator contemporâneo que se dá em razão do nosso estilo de vida, de nossa aceitação patética de enlatados, por mais que Renato já cantasse isso na década de 1980, a geração coca-cola vive hoje, e não antes. Ah se refletíssemos mais sobre nosso estilo de vida e nossas escolhas! (Mas não estou aqui culpando as vítimas).

E o que dizer dos homens e suas cavernas? Seculo XXI, e essa cultura de homens das cavernas ainda persiste em nós. Mesmo com a contemplação do chamado mundo sustentável, o homem (e mulher), ainda buscam se reunir nas cavernas para comer sua caça do dia, se abrigar do frio, etc. Não buscamos alternativas a essa cultura ancestral, evolucionista, neandertal. Ainda no século XXI buscamos caçar durante o dia durante nosso trabalho, onde corremos atrás da moeda de troca atual, para a noite, nos abarrotar dentro de cavernas modernas, representadas por caixas pretas (parafraseando Gérson Point), para provar aos nossos amigos e estranhos que caçamos melhor durante o dia, ou seja, que temos mais grana para beber durante a noite! E aí vem um otário, ou dois, ou vários, que resolvem que está frio na caverna e resolve ascender um fogo... (seja ele pelo sinalizador, curto circuíto, fósforo de alguém, ou o que for, o que importa é que a responsabilidade é de alguém, ou alguéns) E continuamos a cultuar a atividade em cavernas, sem cavernas não podemos socializar!

Fica apenas a dica de revermos nossas atitudes para não ocasionar mais tragédias como essa, para não sermos somente homens das cavernas, e se formos, ao menos cobrar as responsabilidades por segurança dos responsáveis, que são os outros (proprietários, Estado) e nós mesmos (por conhecer legislação, planos de evacuação, olhar onde tem saída de emergência, extintor, ...).
Doravante derradeiro, amplitudes presentes, frutos do passado, consequentes no futuro... O cotidiano!